
CINEMA · ANÁLISE
David Lowery não pretendia criar a versão de 2026 de *Suspiria*, mas isso é meio que o que aconteceu com seu novo filme de terror, *Mother Mary*. O clássico de 1977, que aborda um coven de bruxas disfarçadas de dançarinas, compartilha várias semelhanças com a nova obra de Lowery, que explora a conexão sobrenatural entre a pop star Mother Mary (Anne Hathaway) e sua ex-figurinista Sam (Michaela Coel). Ambos os filmes apresentam forças profanas, rotinas de dança intensas e um clímax visual marcante e colorido, embora essa similaridade não tenha sido intencional.
"Eu amo ambas as versões de *Suspiria*. Não estava pensando nelas de forma explícita, mas definitivamente estou agora", disse Lowery em entrevista. "Há algo incrivelmente sobrenatural na dança. O que os dançarinos conseguem fazer com seus corpos transcende as leis físicas da realidade. Isso realmente parece bruxaria. A linha tênue entre performance, movimento, coreografia e conjuração de um espírito ancestral percorre todos esses filmes." Se você é fã de *Suspiria*, provavelmente vai adorar *Mother Mary*, que se inspira no movimento giallo da Itália, atualizando-o para as sensibilidades modernas. Mesmo que você não goste de terror atmosférico, vale a pena conferir — é algo que eu não vi nos últimos anos.
Lowery detalha algumas cenas-chave de *Mother Mary*, com leves spoilers. Se você ainda não viu o filme, pode ser interessante para ter uma ideia do que torna a experiência única.
Uma das cenas iniciais mostra Mary chegando ao estúdio remoto de Sam, exigindo um novo traje para sua turnê de retorno. Sam concorda e começa a tirar medidas. Em um momento impactante, Anne Hathaway levanta a camiseta, revelando um abdômen definido que surpreendeu a audiência. Lowery afirma que nunca pediu a Hathaway para ficar em forma para o papel, que exige dança física intensa. "Quando Anne leu o roteiro, ela entendeu o que seria exigido fisicamente de uma maneira que eu ainda não tinha compreendido. Ela sabia que teria que passar por um bootcamp de pop-star. Esse processo começou três meses antes das filmagens. Quando ela chegou ao set, já estava em ótima forma. Ela sempre foi, mas estava em um tipo diferente de forma devido a essa transformação para o filme."
À medida que a trama avança, descobrimos que um "fantasma" atormenta tanto Sam quanto Mary. O ser, ou "entidade", como Lowery a chama, aparece pela primeira vez para Sam em uma noite após escapar de seu corpo, tomando a forma de um tecido vermelho fluido, semi-transparente e sempre agitado pelo vento. Mais tarde, o fantasma aparece para Mary, adornado com um círculo vermelho que lembra as tiaras que ela usa durante os shows.
"Você está olhando para um tecido vermelho", diz Lowery. "É uma variedade de tecidos vermelhos, mas tudo é real." Para Lowery, criar a aparência visual do fantasma foi um dos desafios mais difíceis. O design evoluiu drasticamente desde a escrita do roteiro até a tela. "Passamos muito tempo tentando descobrir como essa aparição deveria ser. No roteiro, sempre era descrita como a 'Mulher Vermelha'. Quando escrevi, imaginei uma forma humanoide, uma aparição espectral, como em *Os Caça-Fantasmas*. Mas, à medida que avançávamos na pré-produção, percebi que isso não seria suficiente. Se apenas confiássemos nos sinais visuais tradicionais de um fantasma, não capturaria o que essa entidade realmente representava."
Lowery mergulhou em esboços e esculturas com argila vermelha para explorar diferentes formas e objetos. Ele encontrou o artista Daniel Wurtzel, que cria esculturas com tecido e ar. "Quando vi isso, foi como olhar para um fantasma. E percebi que se encaixava com o que estávamos buscando, porque essa é uma entidade que vem de Sam e viaja até Mother Mary. Como veio de Sam, fazia sentido que tomasse uma forma familiar a ela, expressa através de tecido e moda."
O filme também aborda o fenômeno científico conhecido como entrelaçamento quântico, onde duas partículas se conectam de tal forma que qualquer mudança em uma delas afeta a outra, mesmo que estejam distantes. Na década de 1940, Albert Einstein descreveu essa teoria de forma irônica como "ação fantasmagórica à distância". Ao longo da narrativa, a entidade segue Mother Mary durante sua turnê, culminando em um show onde ela é surpreendida pelo fantasma e cai de uma plataforma flutuante. Embora tenha sido pega por cordas de segurança, o choque a leva a interromper a turnê e se esconder por meses, retornando com uma nova música sobre a experiência, intitulada "Spooky Action". Lowery enfatiza que a filmagem dessa cena exigiu uma combinação de efeitos práticos e truques de câmera. "Tudo foi real. Annie estava realmente naquela plataforma acima da multidão, e tínhamos uma câmera montada lá com ela. Foi incrível. Filmamos as tomadas largas primeiro para capturar o espetáculo, mas quando colocamos a câmera na plataforma para as close-ups, vimos a jornada emocional dela enquanto subia, longe dos fãs, para um espaço liminal indefinido. Anne sabia que essa performance era pública, mas havia algo muito privado acontecendo ao mesmo tempo."
O filme é uma exploração única de temas profundos, combinando elementos de horror e dança de uma forma que ressoa com o público, tornando *Mother Mary* uma experiência cinematográfica memorável.
David Lowery analisa 3 cenas do novo filme de terror Mother Mary
📅 2023 · 🎬 A24 · 🕹️ Terror
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